Grupo responsável pela obra Brasil: Nunca Mais se reencontra em noite histórica
Por Catarina Martines | Foto: Sérgio Decourt
Na última segunda-feira (8), a sede do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (SJSP) foi o palco que homenageou o grupo responsável pela pesquisa realizada há quase 40 anos e que permanece até hoje como referência na defesa da memória e dos direitos humanos. Mais do que um reencontro entre antigos companheiros de trajetória, a celebração exaltou a democracia e reforçou a importância de defendê-la continuamente.
D. Paulo Evaristo Arns, Ricardo Kotscho, Frei Betto, Paulo Vannuchi receberam o Troféu Audálio Dantas 2026 – Indignação, Coragem, Esperança em nome dos 38 integrantes da equipe realizadora do Brasil: nunca mais. Todos foram agraciados com diplomas personalizados.
A investigação, transformada em livro, foi realizada entre 1979 e 1985, durante a ditadura militar, e reuniu documentos da Justiça Militar para denunciar casos de tortura, assassinatos e perseguições políticas cometidos pelo regime.
Considerada uma das maiores denúncias contras as atrocidades cometidas durante esse período, muitos dos que fizeram parte dessa jornada só se reencontraram no dia da entrega do troféu. A cerimônia foi isso: um reencontro.
O trabalho feito pela equipe consistiu em copiar, microfilmar, organizar e esconder documentos que registravam casos de tortura e violência de Estado. Foram esmiuçados mais de 700 processos do Superior Tribunal Militar. A obra que reuniu essa pesquisa foi publicada em julho de 1985 pela Editora Vozes.
No dia da cerimônia, em sua fala de abertura, José Eduardo de Souza, secretário geral do SJSP, destacou que o Brasil: Nunca Mais teve como objetivo revelar ao país e ao mundo a realidade dos porões da ditadura, registrando casos de perseguição, prisão, tortura e assassinato de opositores políticos. As falas ao longo do evento lembraram que a preservação da memória é uma ferramenta fundamental para fortalecer as instituições democráticas e impedir que períodos de autoritarismo sejam esquecidos ou relativizados.
Sergio Gomes, diretor geral da OBORÉ foi o responsável por contactar todos os vencedores para anunciar que a equipe havia sido prestigiada com o Troféu Audálio Dantas deste ano. Ele e Vanira Kunc, jornalista e esposa de Audálio, conduziram a cerimônia em meio a sorrisos emocionados.
Coletivo é que faz história
Um dos idealizadores do projeto, o advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, relembrou a origem da iniciativa ao defender seu papel histórico. "Eu acho que o Brasil:Nunca Mais foi a primeira Comissão Nacional da Verdade feita durante a ditadura", afirmou. Segundo ele, o trabalho só foi possível graças ao comprometimento de dezenas de colaboradores que atuaram sob absoluto sigilo.
Os depoimentos proferidos durante a cerimônia também destacaram o grau de organização necessário para manter o projeto em funcionamento. Durante cerca de seis anos, dezenas de pessoas atuaram em sigilo absoluto, transportando documentos, produzindo cópias e sistematizando informações sem que a operação fosse descoberta pelos órgãos de repressão. Para os participantes do encontro, o sucesso dessa mobilização demonstra não apenas a coragem dos envolvidos, mas também a força da atuação coletiva na defesa dos direitos humanos e da memória histórica.
A cerimônia destacou o caráter coletivo da investigação. Ao longo da entrega dos certificados, os organizadores apresentaram os participantes como integrantes de uma grande redação jornalística. A proposta simbolizava a forma como o Brasil: Nunca Mais foi construído: cada pessoa desempenhava uma função específica, muitas vezes sem conhecer a identidade ou a tarefa dos demais envolvidos.
Durante a sessão, foram homenageados personagens que atuaram em diferentes frentes do projeto. Entre eles estavam Paulo Vannuchi, responsável pela sistematização dos dados que dariam origem à publicação; Luiz Eduardo Greenhalgh, um dos articuladores da iniciativa; a madre Cristina, que colaborou na estrutura logística; Abel de Alcântara, que participou da reprodução dos documentos; Vera Machado, Terezinha de Jesus Amorim e outras integrantes da equipe que ajudaram a organizar informações e preservar registros fundamentais para a pesquisa.
Também foram lembrados os papéis desempenhados por Dom Paulo Evaristo Arns e pelo Reverendo Jaime Wright. Enquanto Dom Paulo ofereceu respaldo institucional e político ao projeto, Jaime Wright foi decisivo para viabilizar o apoio do Conselho Mundial de Igrejas, que ajudou a financiar a investigação.
Quarenta anos após a publicação do livro, a homenagem procurou justamente recuperar essa dimensão coletiva da história. Ao prestigiar os bastidores da investigação, a cerimônia reforçou uma das principais lições do Brasil: Nunca Mais - grandes transformações históricas raramente são resultado da ação individual. Elas dependem do trabalho paciente e coordenado de muitas pessoas, algumas das quais permanecem anônimas mesmo depois de décadas.
Muitos participantes também refletiram sobre a atualidade do legado do Brasil:Nunca Mais. O jornalista Jamil Chade, homenageado na edição de 2021 do Troféu Audálio Dantas, contou que utilizou a experiência do projeto como exemplo de resistência democrática em conversas com grupos progressistas dos Estados Unidos. "Essa resistência não é feita por governos, por autoridades, mas por pessoas. E essas pessoas são vocês", afirmou ele se referindo aos jornalistas presentes. Para ele, a defesa da democracia depende do compromisso cotidiano dos cidadãos com as instituições que compõem a vida democrática.
O jornalista e escritor Camilo Vannuchi, responsável por resgatar a trajetória do Brasil: Nunca Mais em pesquisas recentes, também foi um dos homenageados. Autor do livro Nunca Mais: A conspiração que revelou ao mundo o sistema de tortura da ditadura militar, lançado em 2025, Vannuchi conta que a obra foi resultado de meses de entrevistas e investigação e reconstrói os bastidores da operação clandestina que reuniu, copiou e preservou os documentos da Justiça Militar. Durante o evento, o autor destacou a emoção de reencontrar parte dos participantes do projeto.
Quem fez essa história?
A comparação com uma redação ajuda a compreender a dimensão da operação. Havia responsáveis pela logística, pela reprodução dos documentos, pela organização do material, pela análise dos processos, pela redação dos textos e pela articulação institucional que garantiu a segurança da investigação. Como em uma reportagem de grande porte, cada etapa dependia da anterior e nenhuma delas seria suficiente de maneira isolada.
Confira os homenageados:
Diretor de Redação
D. Paulo Evaristo Arns
Conselho Editorial
Charles Roy Harper Jr
Philip Potter
Anivaldo Padilha
Redator Chefe
Reverendo Jaime Wright
Editores Executivos
Eny Raimundo Moreira
Luiz Eduardo Greenhalgh
Luiz Carlos Sigmaringa Seixas
Secretário de Redação
Paulo Vannuchi
Chefia de Reportagem
Ana Maria de Camargo
Vanya Sant’ Anna
Produtora Executiva
Leda Corazza
Editores
Frei Betto
Ricardo Kotscho
Editor Digital
Carlos Lichtsztejn
Repórteres
Alice Mieko Yamaguchi
Benedito Mariano
Egydio Machado Salles Filho
Ico Curti
Irmã Regina
Irmã Ruth
Lidia Goldman Irony
Luis Eduardo Moreira
Maria Almeida Stédile
Maria Lúcia
Maria Amélia Neves Cândido
Mônica Petti
Petrônio de Souza
Raul de Carvalho
Sonia Hypolito
Nadir Moreira da Silva
Terezinha de Jesus Amorim
Vera Machado
Gerente de Tecnologia
Cândido Pinto de Melo
Documentação e Informação ( Dedoc)
Avel de Alencar
José do Egito Sombra
Estrutura Logística
Madre Cristina
Confira os organizadores do Troféu Audálio Dantas 2026 - Indignação, Coragem e Esperança:
A premiação, que também comemorou o Dia Nacional da Liberdade de Imprensa, 7 de junho, contou com um CONSELHO CURADOR formado pela Família Audálio Dantas, União Brasileira de Escritores, Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado São Paulo, Associação Brasileira de Imprensa, Centro de Estudos da Midia Alternativa "Barão de Itararé", Agência Sindical, OBORÉ, Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal de São Paulo / Presidenta Luna Zarattini, Mandato Vereador Eliseu Gabriel, Instituto Premier, Grupos de Oração São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, Sindicato dos Professores de São Paulo, Instituto Vladimir Herzog, Associação de Repórteres Fotográficos e Cinematográficos no Estado de São Paulo, Fotos Públicas, Coro Luther King, Projeto Repórter do Futuro, Instituto Equipe Educação, Cultura e Cidadania, Centro Acadêmico Vladimir Herzog - Fundação Cásper Líbero, Coletivo "Café Sem Pauta", CÉU - Museu de Arte a Céu Aberto, e Ponto de Cultura "Associação Amigos da Praça Memorial Vladimir Herzog".
Entidades associadas
Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo, Associação dos Cartunistas do Brasil, Associação dos Correspondentes Estrangeiros, Associação Profissão Jornalista, AQC - Associação dos Quadrinhistas e Caricaturistas do Estado de São Paulo, Centro Acadêmico "Benevides Paixão" da PUC-SP, Colibri & Associados Comunicações, Federação Nacional dos Jornalistas, Federação dos Professores do Estado de São Paulo, Jornalistas & Cia, Instituto Elifas Andreato, IMAG – Instituto Memorial de Artes Gráficas do Brasil, Instituto de Pesquisa, Formação e Difusão de Políticas Públicas e Sociais, Observatório da Imprensa, Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de Alagoas, Sindicato dos Engenheiros do Estado de São Paulo.
Saiba mais sobre a edição deste ano: [https://www.obore.com/noticia/trofeu-audalio-dantas-2026-homenageia-jornalistas-e-colaboradores-do-projeto-brasil-nunca-mais]