11/05/2026

Todos devem enxergar a guerra com olhos lúcidos, principalmente os jornalistas

Por Catarina Martines

Por que uma guerra precisa ter regras? Uma violência com regulamento, para uma interpretação supérflua, pode até soar contraditório. Então, por qual razão algo que é a manifestação clara da desordem necessitaria de uma organização? Não está implícito que, com o início de uma guerra, o diálogo e a ordem estão fora de questão?

Em seu mais novo livro As Regras da Guerra, João Paulo Charleaux propõe ao leitor uma reflexão sobre os conflitos armados. Por meio de exemplos históricos entrelaçados com relatos pessoais durante suas coberturas jornalísticas, Charleaux mostra que nem tudo é permitido no campo de batalha.

A obra foi lançada na última terça-feira (05) na Megafauna Cultura Artística, em São Paulo, com debate do qual participou a jornalista e repórter especial da Folha de S. Paulo Patrícia Campos Mello. Charleaux contou que teve a ideia de escrever o livro quando Israel iniciou o conflito contra a Palestina. O jornalista, então, fez o que sua profissão propõe-se a fazer: explicou o tema ao público.

Antes publicados na série de reportagens da Folha de S. Paulo, os textos tinham como propósito “trazer um debate mais bem informado e explicar o que estava acontecendo”. Na cobertura que desenvolvia sobre o tema, Charleaux viu a possibilidade de dar nova face à discussão por meio de uma explicação técnica e pontual usando como exemplo a diferenciação sobre quem está no combate e quem não está. Os civis não estão protegidos dentro de uma zona de combate, assim, qualquer violência desferida contra eles é enquadrada como um crime de guerra. Eis aí uma regra.

Dentro disso, o termo “alvo legítimo” apareceu e, junto dele, a afirmação de que os jornalistas nunca devem ser enquadrados nesta categoria, muito embora sejam frequentes os relatos de profissionais que tenham sofrido violência ao cumprirem seu ofício. O profissional de imprensa cumpre um papel fundamental ao fazer a cobertura de conflitos armados e sua liberdade e proteção tem que ser assegurados.

A atuação dos Estados, mesmo aqueles que não estão envolvidos em um conflito em si, também é ponto de destaque na obra. Para Charleaux, a manutenção dos mecanismos do Direito Humanitário diante de violações constantes depende da atuação e do comprometimento dos próprios países com as instituições internacionais e seus acordos. “O equilíbrio é fraco e frágil e repousa na responsabilidade dos Estados”, afirmou.

Uma das partes da obra apontadas por Charleaux como fundamentais é a entrevista com um militar que tenta justificar um ataque reconhecidamente desproporcional. Mesmo discordando do que o seu entrevistado falou, ele reconhece a importância de ouvi-lo: “eu não estou interessado se o que o personagem diz é certo ou errado, eu quero entender como ele pensa”.


Durante o evento, Charleaux explicou a estrutura geral da narrativa, que desdobra as regras da guerra a partir da história da humanidade | Crédito: Catarina Martines

No debate, Patrícia Campos Mello indaga sobre os principais erros da cobertura jornalística em guerras. “Jornalismo é uma questão de nuances, essa é a dificuldade. É a capacidade de sustentar um diálogo contraditório”, respondeu Charleaux.

João Paulo Charleaux é jornalista e escritor. Trabalhou como coordenador de Comunicação do escritório regional do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) em Brasília, foi correspondente do Nexo em Paris e editor-assistente de Internacional no Estado de S. Paulo. Quando ainda estudante, foi estagiário na OBORÉ e responsável por produções radiofônicas como A Voz da Contag e Plantão Saúde. Atualmente, integra o Conselho de Orientação Profissional do Projeto Repórter do Futuro, do qual também foi aluno, no final dos anos 1990. Colunista do Uol, também comenta temas ligados aos conflitos internacionais em emissoras como CNN e CBN, além de colaborar com Nexo, piauí e CartaCapital. É autor de Ser estrangeiro: Migração, asilo e refúgio ao longo da história (Cia das letras, 2022). A série de reportagens sobre as regras da guerra foi publicada ao longo de 2023 a 2026 na Folha de S.Paulo.

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