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Panorama das Práticas de Educomunicação
Por Giovanna Modé
A interface entre educação e comunicação foi o assunto do debate que encerrou a segunda edição do Seminário Onda Cidadã, Panorama das Práticas de Educomunicação, na tarde do sábado, 22 de novembro. Dividiram o palco três especialistas no tema: Adilson Citelli, professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo; José Misael Ferreira do Vale, professor do Departamento de Educação da UNESP, campus de Bauru; e a professora Alexandra Bujokas, coordenadora do curso de especialização em Educomunicação da Universidade do Sagrado Coração.
A professora Alexandra abriu o debate alertando para os cuidados que um professor deve ter ao levar veículos de comunicação para dentro da sala de aula. “Se o professor resistir a trabalhar jornais, revistas e tevê com os alunos, a escola corre o risco de ficar anacrônica, já que eles fazem parte do universo dos estudantes. Mas pegar a revista Veja, por exemplo, e levar para uma atividade de ensino sem ‘dar um trato’ é ignorar a função ideológica da mídia”, disse.
Ela se refere ao poder manipulador dos grandes veículos de comunicação, que acabam transmitindo a opinião de seus proprietários camuflada por um tom imparcial. Segundo a professora, um leitor comum tende a tomar a mensagem transmitida pela mídia como verdade absoluta e esse fenômeno não pode ser reproduzido pela escola. “Os alunos devem aprender a receber as mensagens de forma crítica e desconfiar de todas”, afirmou. E reforçou que o papel da educomunicação é justamente criar mecanismos para que os alunos possam se proteger dos efeitos nocivos da chamada indústria cultural.
Já o professor José Misael, que leciona desde 1956, abriu sua intervenção diferenciando a prática comunicativa da prática educativa. “São práticas sociais diferentes que podem e devem se relacionar”, ressaltou. Dentro da educativa, disse o palestrante, a educação escolar é a forma hegemônica escolhida pela humanidade. “É uma invenção humana colocar a juventude no interior de uma instituição e lá fazer com que a geração jovem seja colocada em contato com a cultura historicamente constituída pela humanidade. Hoje nós temos 40 milhões de brasileiros no pátio escolar. E a educação ainda não é prioridade nesse País.”
Para ele, o governo que procurar atingir a quantidade não está errado. “Gramsci dizia que se você quer atuar socialmente, tem que atuar do ponto de vista de uma dialética de quantidade e qualidade. É justamente a educação elitista que começa pelo discurso da qualidade. Em primeiro lugar, temos que colocar todos na escola. Mas não basta: há necessidade de uma escola qualitativa. Então não faça escola pobre para o pobre, porque você vai aumentar as distâncias sociais”, reforçou o professor.
Dentro desse processo, José Misael reforçou a importância de se fortalecer a escola pública. “Ela é o único espaço possível onde se pode realizar a dialética da quantidade e da qualidade. O único espaço possível de cultura erudita, sistematizada para as camadas populares. Quando você desvaloriza a escola, como fazem os meios de comunicação, destrói o único espaço possível de formação das camadas populares”
O professor Adilson Citelli, da ECA/USP, ao levantar reflexões sobre essa interface entre educação e comunicação, lembrou que essa prática não é uma técnica, sequer uma novidade. “É um exercício interdisciplinar, transdisciplinar e multidisciplinar”, disse.
Segundo ele, há quem pense nesse fenômeno no Brasil desde os anos 30, mas com outras perspectivas. “Roquette Pinto, Anísio Teixeira, por exemplo, começaram a perceber que o rádio era um veículo fundamental para promover a educação num país rural. Mas o que queriam quando falavam em educação no rádio naquela época? Eles tinham um projeto para o País, queriam criar uma nação.”
Hoje o sentido é bem diferente, até pela diferença no uso que se faz do termo “educação”. Segundo o professor, na década de 30 a palavra carregava o sentido de “formação nacional”. Já nos anos 70, designava uma visão apenas quantitativa que respondia à expectativa dos órgãos internacionais que cobravam a diminuição dos índices de analfabetismo no país.
Atualmente, o conceito de educação que vem sendo aplicado pela mídia traz uma visão totalmente salvacionista, só que o conceito é operacional. “Isso é terrível. Eles falam ‘ou damos educação para esses meninos ou eles vão ficar desempregados’. A educação não pode ser olhada por essa visão salvacionista porque essa escola da qual eles falam não está incluindo ninguém”, afirmou.
Hora de encerramento das atividades e os participantes pedindo um pouco mais. Se houvesse mais tempo, o debate certamente se estenderia e as reflexões continuariam. De qualquer forma, para a platéia e para quem quiser se aprofundar, em breve haverá, neste site, um artigo de cada um dos especialistas levantando mais questões acerca da educomunicação.
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