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Rádios Cidadãs: Experiências de Dois Casos
Por Aline Macário
Dois testemunhos de experiências com rádios comunitárias foram os destaques da mesa-redonda Rádios cidadãs: a experiência de dois casos, a primeira do seminário Onda Cidadã, que ocorreu na Universidade do Sagrado Coração (USC), em Bauru (SP), promovido pelo Itaú Cultural, com o apoio da USC e da OBORÉ Projetos Especiais. Carmem Regina Silva, da coordenadoria diocesana das rádios comunitárias de São Carlos (SP) e Geronino Barbosa de Souza, diretor da rádio comunitária de Heliópolis, falaram sobre a história das emissoras que coordenam, seu papel na comunidade e as dificuldades que enfrentam.
Geronino, morador de Heliópolis, a maior favela de São Paulo, com cerca de 100 mil habitantes, lembrou do surgimento da rádio que hoje dirige. Em 1992, essa idéia partiu da necessidade de organização e comunicação entre os moradores, que trabalhavam em um programa de mutirão para a construção de casas na favela. Com recursos obtidos com a ajuda de padres alemães, que desenvolviam um trabalho na região, foi possível comprar um transmissor e uma antena. Foi o início da Rádio Corneta, como era antes conhecida, que não passava de alto-falantes nos postes.
Nesses 11 anos, a rádio cresceu, passou a se chamar Rádio Heliópolis, e se tornou uma importante ferramenta de desenvolvimento e coesão da comunidade. Hoje, ela é referência entre as comunitárias em todo o País e já ganhou o prêmio da APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) por promoção da cidadania. Apesar disso, a emissora ainda não é legalizada perante o Ministério das Comunicações.
Já a luta de Regina pela democratização dos meios de comunicação teve início em 1993, em Américo Brasiliense, pequeno município do interior paulista. Ela participou da implantação de 10 rádios que hoje são regularizadas e de mais três que vão entrar no ar até o final deste ano, na região da diocese de São Carlos.
Desde então, diversas das iniciativas de Regina foram barradas pela fiscalização da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), que fechou as rádios que funcionavam sem legalização, apreendeu equipamentos e processou os produtores. Em um desses episódios, Regina foi condenada a prestar serviços à comunidade, através da doação de fraldas geriátricas e jogos de lençol para um asilo durante dois anos. “Fiquei revoltada, não pelo valor que eu teria que pagar, mas pelo desrespeito. Nós já realizávamos trabalho comunitário com a rádio”, disse ela.
Regina acredita que problemas semelhantes não foram enfrentados pela Rádio Heliópolis por ser conhecida em todo o Brasil. “Teria uma repercussão muito grande e traria resultados negativos para a Anatel”.
Além da luta pela concessão para irem ao ar, Geronino e Regina também levantaram outras dificuldades enfrentadas pelas rádios comunitárias. Os produtores precisam se esforçar para garantir a sobrevivência das emissoras, já que elas não podem receber patrocínio, apenas apoio cultural. Para garantir um respaldo financeiro, é preciso usar a criatividade e encontrar brechas na lei.
Outro desafio das comunitárias é se manterem independentes. No caso de Regina, o esforço é no sentido de dissociar a imagem das emissoras da Igreja Católica, por quem é mantida. Ela reclamou que, muitas vezes, a rádio comunitária fica conhecida como “a rádio do padre”. Já no caso de Geronino, o desafio é manter a independência em relação ao tráfico de drogas. Ele assegura que as pessoas ligadas ao tráfico não influenciam no trabalho da rádio. Pelo contrário, eles respeitam, já que são testemunhas de um trabalho de prestação de serviços importante para a comunidade.
Profissionais de comunicação
Em uma mesa-redonda realizada em um espaço universitário, num evento destinado a futuros e atuais profissionais de comunicação, os debatedores não escaparam da questão da participação de profissionais nas rádios comunitárias. Para Regina, isso possibilitaria melhor qualidade à programação das rádios. Além disso, ela acredita que as emissoras sejam um espaço interessante para estudantes e recém-formados.
Geronino, porém, ressaltou a importância de se formarem profissionais dentro da própria comunidade. Ele contou que a Rádio Heliópolis tem alguns locutores que possuem um nível de escolaridade baixo. No entanto, a rádio perderia a característica comunitária se não desse espaço para todos os moradores da favela. “Esses locutores se identificam com a comunidade e a comunidade se identifica com eles. Por isso estamos procurando as universidades para abrir caminhos para eles aprenderem”, opinou. Ele acredita que a rádio se desenvolveria de maneira mais eficiente se houvesse parceiras com universidades, que oferecessem cursos de capacitação aos moradores da favela, bolsas, assistência técnica e acompanhamento de alunos e professores.
Como resultado da mesa-redonda, sugeriu-se que fossem aplicados os resultados dos debates do Onda Cidadã em Bauru. Apesar de possuir um canal destinado a rádios comunitárias e duas faculdades de jornalismo, a cidade ainda não possui nenhuma iniciativa neste sentido.
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