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    Rádios comunitárias e educativas proliferam em Itabuna

    Por Terlânia Bruno, Kátia Abreu e Andréia Fernandes

    Para participar do Onda Cidadã, veio de Itabuna, na Bahia, o modelo de rádio comunitária que deu certo. Inaugurada há um ano e meio dentro da Escola Lourival Oliveira Soares, cujas letras iniciais deram nome à rádio, a Elos FM surgiu da vontade política da prefeitura local.

    Itabuna conseguiu, através de uma lei municipal, autonomia para permitir o funcionamento de rádios comunitárias nas escolas. A iniciativa foi do Secretário da Educação, Adeum Sauer, que queria melhorar a qualidade da educação nas escolas itabunenses tendo o rádio como parceiro. A lei foi sancionada em 28 de dezembro de 2001.

    A escola interessada apresenta o projeto à Secretaria de Educação que fornece a infra-estrutura necessária para o funcionamento da rádio. A lei de Itabuna estabelece que as emissoras sejam coordenadas por um Colegiado Escolar formado por pais de alunos e representações dos estudantes, funcionários e direção da escola. Esse coletivo, formado por 7 ou 8 pessoas, é quem toma conta da rádio, definindo, inclusive, a programação.

    “Meu trabalho é acompanhar esse processo todo e reunir quem quer atuar como voluntário, oferecer oficinas em parceria com a universidade”, afirma a radialista e professora de português Ivone Miranda da coordenação da rádio. Ela conta que para montar a grade de programação foram estabelecidas parcerias com alguns cursos da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), como Enfermagem, Medicina e Agronomia.

    Contribuição de estudantes - Os estudantes enviam informações a partir de trabalhos e pesquisas feitas na própria comunidade que entram como spots no decorrer da programação. “Eles mandam dicas, por exemplo, de como evitar as verminoses. O pessoal de Agronomia tem uma parceria com a gente no programa “Bom Dia, Tabocas!” (Tabocas foi o primeiro nome de Itabuna), que é dedicado aos trabalhadores rurais. Eles mandam dicas de como cuidar da terra de uma forma ecologicamente mais saudável, sem usar agrotóxicos; como cuidar de animais, várias dicas que ajudam as comunidades rurais”, diz Ivone.

    A programação da Rádio Elos é variada. Tem programas dedicados à juventude, às donas de casa e trabalhadores rurais. Segundo Ivone, há o compromisso de colocar sempre no ar informações de utilidade pública, como documentos perdidos, horários de atendimento nos Postos de Saúde mais próximos, nomes dos médicos e especialidades.

    Também são produzidos programetes de até dois minutos sobre alimentação natural, direitos da mulher, da criança e do adolescente. A interatividade com os ouvintes é estimulada através, por exemplo, do programa “Tire dúvidas de língua portuguesa”. “Os ouvintes ligam, dizem quais as dúvidas ou mandam por escrito e a gente responde”, diz Ivone que faz um pouco de tudo na rádio assim como as outras 22 pessoas da equipe. Os estagiários da UESC, responsáveis pela produção de programas, colaboram na realização de oficinas de capacitação para os voluntários e são pagos pela Prefeitura.

    O trabalho de capacitação é permanente e visa reciclar quem já atua na rádio e os que estão chegando. “A gente faz oficinas de capacitação, esclarecendo o que é uma rádio comunitária educativa, quais os objetivos e também dá dicas de leitura, dicção, interpretação, entonação”, diz a estudante de Comunicação Social da UESC, Auriana Bacelar, que faz estágio na Rádio Elos.

    A Rádio Elos funciona todos os dias, das 5 à meia-noite, graças ao empenho dos voluntários, a maioria alunos da própria escola, professores, pais de alunos e pessoas da comunidade. Está localizada no bairro de Ferradas, onde a cidade de Itabuna nasceu. A escolha por essa localidade foi estratégica. Além de ser uma das regiões mais pobres do município, tem um relevo que favorece o funcionamento de uma rádio de baixa potência. O transmissor de 25 watts atinge de 15 a 18 Km, de acordo com Ivone.

    Modelo Inspirador - Depois da experiência positiva da Rádio Elos, mais duas emissoras educativas foram instaladas na cidade: a Itabuna FM e a Alto Conquista FM, ambas inauguradas em julho passado em localidades distintas. A Itabuna FM, que funciona na Escola Caíque, fica no bairro central Jardim Primavera, já a Alto Conquista FM, foi instalada no periférico bairro de Maria Pinheiro, onde, segundo Ivone, “tudo lá é mais: mais violência, mais droga, mais fome, mais miséria, mais desemprego”.

    Nesses pouco mais de dois meses, a comunidade já deu mostras do quanto quer a rádio funcionando. “A rádio já fez trabalhos extraordinários. A gente começou sem discos, sem CDs. Eu levei os meus de casa, outros companheiros levaram os seus e a gente fez a campanha (para arrecadar CDs) na rádio. Uma semana depois, não tinha mais onde colocar CDs. A comunidade em massa foi para a rádio, levou disco e continua participando, pedindo música, sugerindo temas para os programas, atuando na rádio”, conta Ivone.

    Ela diz ainda que os primeiros programas transmitidos pela Alto Conquista foram feitos com políticos da cidade com o objetivo de extrair deles o compromisso em melhorar a qualidade de vida no bairro. “Isso já vem acontecendo. A gente acredita que as rádios serão um dos mecanismos que vão ajudar a melhorar a vida das comunidades locais”.

    A programação da Rádio Itabuna não difere muito das outras duas emissoras.

    “Cada um lá tem o seu espaço: tem um espaço para hip hop, músicas afro-brasileiras, todo tipo de manifestação cultural da periferia entra num programa chamado “Fuzuê”. Temos um programa de notícias, de música sertaneja, informativos sobre saúde, educação. A programação é muito ligada a cultura, educação e música”, diz Michele Bandeira, voluntária na rádio.

    As rádios estão à procura de parcerias para, principalmente, oferecer ajuda de custo aos voluntários. Segundo Michele, alguns estão desempregados e dedicam boa parte de seu dia à rádio, mas não recebem nada por isso.