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    Transmissão em espanhol para imigrantes latinos em São Paulo

    Por Giovanna Modé e Lídia Neves

    A diversidade cultural entre as emissoras participantes do Onda Cidadã extrapolou até mesmo os limites da língua portuguesa. Na platéia estava o boliviano Edgar Gandarillas, representando a Rádio Latina Sat, que transmite programas em castelhano, quéchua e aymará (idiomas falados nos altiplanos bolivianos e peruanos).

    Os programas veiculados pela rádio são voltados à comunidade latina que vive em São Paulo: são na maioria bolivianos, peruanos, paraguaios, chilenos e argentinos que imigraram para o Brasil em busca de melhores condições de trabalho e de vida. Mas nem de longe é o que encontram: muitos vivem clandestinamente e têm dificuldades no acesso aos serviços básicos de educação, moradia e saúde.

    O objetivo da rádio é alcançar justamente as regiões onde essa população – estimada em 400 mil pessoas na capital paulista – está concentrada: Brás, Bom Retiro, Casa Verde, Santana e Mooca. Mas não tem potência para tanto e acaba atingindo uma área bem menor. Edgar não sabe ao certo o número de ouvintes, mas, pelo retorno que tem nos programas interativos, calcula algo em torno de 300 mil.

    São 24 horas por dia no ar e 15 diferentes programas. Além de músicas latinas e notícias sobre o Brasil e os países de origem, o foco é a área da saúde. “Usamos o programa Plantão Saúde, da OBORÉ, e aprofundamos nas questões que nosso pessoal tem mais dificuldade”, diz ele, referindo-se, por exemplo, a problemas como tuberculose e acompanhamento pré-natal. “Falamos como a comunidade pode usar os serviços de saúde”.

    Para descontrair, a programação inclui também uma seção de esportes, que privilegia os times de futebol da comunidade boliviana em São Paulo. “Temos o campeonato inter-latino que vai sair pela primeira vez. Já temos a federação inter-ligas, que tem mais de 15 ligas de toda a cidade”, conta, entusiasmado.

    Ele comenta que a grande maioria dos imigrantes trabalha nas oficinas de costura – cumprem muitas horas de trabalho por dia, uma vez que ganham por peça produzida, e são mal remunerados. Não é o caso dele, que divide seu tempo entre a rádio e serviços de mecânica para automóveis. Edgar veio para o Brasil há quatro anos com a mulher e aqui tiveram dois filhos. Apesar das dificuldades, não quer voltar tão cedo a La Paz, Bolívia, onde vivia.

    Nunca havia trabalhado com rádio na Bolívia, mas aqui acabou aderindo à causa quando percebeu o papel da Latina Sat entre a população latina imigrada. “É a principal fonte de informação de nossa comunidade. Eu e os outros diretores que arcamos com os gastos, não temos ajuda de ninguém”, diz.

    A rádio está no ar há dois anos, mas ainda sem a outorga do Ministério das Comunicações. Ou melhor, há um ano sem interrupções. No primeiro ano de funcionamento, com as apreensões de equipamentos pela Polícia Federal, ficou sem transmissão por vários meses. Há um ano, porém, a situação ficou mais tranqüila – pelo menos sem novas invasões.

    Edgar e a equipe estão comemorando a última conquista da rádio: na semana passada, acabaram de pagar a compra dos equipamentos de transmissão próprios – antes usavam emprestado de outra emissora. “Agora só falta o computador, para modernizar um pouco mais”, diz ele. Por conta das mudanças, já estiveram em diferentes freqüências e hoje estão no 101,3 FM.