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    Rumo à diversidade: Selos Independentes e Rádios Comunitárias começam parceria

    Por Katia Abreu

    É inegável o papel das rádios na divulgação da produção musical. Por meio das ondas radioelétricas, um artista do Rio Grande do Sul pode alcançar público no Pará, por exemplo. Mas uma lógica comercial vem imperando sobre esse processo. A atual estrutura da indústria cultural permite que se estabeleça uma certa promiscuidade entre rádios e gravadoras, de modo que essa função de difusor de boa (nova e velha) música seja encoberta por critérios econômicos e tenhamos uma homogeneização da programação nas rádios comerciais Brasil afora.

    Dessa forma, o encontro entre rádios comunitárias, educativas e livres e selos independentes - ambos fora do esquema de jabás de que tanto se fala atualmente - talvez ofereça uma saída à mesmice instaurada no dial brasileiro. De um lado, temos rádios comprometidas não com a indústria cultural, mas com o cidadão e com a qualidade de sua programação, tendo em vista sempre a diversidade artística. Do outro, selos e gravadoras representando artistas que encontram nas rádios comerciais a principal barreira para que seu trabalho se torne conhecido pelo público.

    Uma ponte entre estes dois pólos começou a ser construída durante o seminário Onda Cidadã . Os radialistas presentes relataram, durante o evento, a dificuldade em fazer contato com gravadoras (independentes ou não). A maior parte deles contou que a programação das rádios é feita na base de empréstimos de discos ou com músicas em formato mp3, baixadas da Internet - essa segunda forma fica restrita à minoria com acesso à rede.

    Ao final do seminário, entretanto, as mais de 60 emissoras representadas no Itaú Cultural voltaram para casa com as coleções "Rumos Musicais" e "Funarte" - que somam 50 CDs - distribuídas pelo Itaú Cultural, além de catálogos e discos da Art Music, Azul Music, CPC / Umes, Núcleo Contemporâneo, Trama, Tratore, e material do Consulado Geral da França e da Associação Brasileira de Música Independente.

    A conexão estabelecida no seminário pode ser um ponto de partida para parcerias a longo prazo entre dois agentes importantes para a construção e divulgação da música brasileira. A gravadora Azul Music, que enviou aos participantes o álbum “Chill Out Rapadura” do produtor Edson X, já manifestou interesse em manter o contato ali iniciado: “Para nós é de grande interesse trabalhar com as rádios comunitárias e/ou universitárias”, afirmou Miriam Franco, diretora da gravadora, que vai solicitar à organização do seminário a relação das rádios que estiveram presentes.

    Limitações

    "Temos um departamento só para cuidar das rádios que não são comerciais, o Trama Universitária. A gente tenta atendê-las da melhor maneira possível", explica Pena Schmidt, diretor artístico da gravadora e presidente da Associação Brasileira de Música Independente (ABMI). Para Pena também vê com bons olhos a relação entre as rádios comunitárias e os selos e gravadoras independentes: "A gente quis participar do seminário para mostrar nossa simpatia a causa, para mostrar que entendemos a necessidade de se estabelecer esse contato".

    Entretanto, ele pondera que existem limitações que impedem que selos independentes façam chegar a estas rádios seus discos: "Essa é uma discussão que temos na ABMI. Um selo pequeno não tem como prensar quatro, cinco mil cópias de discos para distribuir só como material de divulgação". Pena acredita que o caminho para a distribuição poderia ser o mp3. "Em 2000, quando fizemos o primeiro encontro de selos independentes, a Oboré participou em uma das palestras e sugeriu isso, que na época era uma idéia revolucionária", lembra. O presidente da ABMI ressalta ainda a experiência do Viva Favela, no Rio de Janeiro, que com o apoio da associação Viva Rio, está organizando a comunicação entre as rádios comunitárias cariocas por um provedor de Internet próprio. "Eles estão fazendo com que as comunidades tenham acesso a rede, o que facilita a divulgação de material e a troca de informações entre eles". Pena comenta ainda que a ABMI se associou a empresa E-Music, que faz distribuição eletrônica de música e venda de downloads, para montar um catálogo dos independentes na rede: "A idéia é disponibilizar cópias autorizadas desse material para download. Assim, conseguiríamos fazer chegar nosso material às rádios, sem o problema da tiragem dos discos mas também sem que ninguém precisasse apelar para a pirataria", conclui.